Não se pretende fazer aqui crítica literária. Sou um cidadão do mundo que sente amor natural pelos livros. Na minha casa as paredes estão cobertas pelos livros. E falo com eles ou melhor eles falam comigo como se fossemos grandes amigos. Revelam-me os seus segredos e os conhecimentos dos seus autores ou contam-me histórias onde se inscrevem valores humanitários universais.

São ensaios, romances, contos e narrativas, peças de teatro, clássicos e modernos, mas também sobre o ambiente ou tecnologias úteis no nosso dia-a-dia. São obras que fazem parte da minha paixão pelos livros e que humildemente indicamos como sinal e guia para quem deseje conhecer conteúdos que julgamos dignos e fiáveis.

E porque desejo transmitir uma análise que embora pessoal seja minimamente correcta nem sempre consigo manter a actualidade que seria normal se a falta de tempo por abraçar outras actividades não o impedisse. Mas aqui estarei sempre que possa.

Gil Montalverne

E SE EU FOSSE DEUS?

Fernando Correia


Mais uma vez estamos perante uma obra demonstrativa da grande sensibilidade de um autor, meu amigo e camarada de trabalho de muitos anos na então Emissora Nacional, jornalista e escritor com muitas obras publicadas entre as quais duas que estão neste espaço que criei na Net. Mas é também o comentador desportivo na Rádio e Televisão com milhares de admiradores que não perdem as suas regulares intervenções, professor na área da Comunicação Social, enfim um homem de extraordinárias qualidades. Só assim se compreende que tenha acompanhado um sem-abrigo por todos os locais – e são muitos infelizmente – onde se abrigam em Lisboa a enorme quantidade desses desprotegidos que não têm as mínimas condições de vida que afinal até lhes estariam garantidas pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e nomeadamente pela nossa Constituição. O Fernando acompanha Henrique, um sem-abrigo que todos os dias via passar na sua rua, quase sempre à mesma hora. Era um homem alto, um pouco curvado, passo cadenciado, caminhando como se fosse para o emprego que depois veio a saber-se que não tinha. Aliás Henrique não tinha emprego, não tinha casa, não tinha família, quase podendo dizer-se que não tinha nada. Mas afinal tinha tudo o que necessitava. Tinha o sol, as árvores, o próprio céu como teto dos locais onde dormia. E é Henrique, sentado num seu banco habitual do Jardim do Alto de Santo Amaro, que depois do Fernando o abordar, perguntando-lhe se podiam conversar, lhe responde com uma outra pergunta: Costuma conversar com Deus? A partir daí, Henrique, confessando não ser crente, confessa isso sim que se fosse Deus, faria deste mundo um mundo diferente. E isso seria possível se todos os homens quisessem, se fossem mais solidários, se como governantes tomassem medidas para evitar que continuassem a existir pobres, sem-abrigo, drogados, alcoólicos, analfabetos, a exploração de menores, a prostituição feminina e masculina, o desemprego, a fome, os doentes sem possibilidade de se tratarem, o abandono dos velhos em lares e muito mais daquilo que alguém, a quem chamam deus, permite afinal que encham as ruas, os vãos de escada, pequenos locais mais abrigados, toda a miséria que está patente nesta e noutras cidades, como aliás pode mostrar. E é então que Fernando Correia é conduzido por Henrique a locais como Monsanto e os esconderijos que por lá existem, algumas estações ferroviárias que por vezes permitem que lá pernoitem os sem-abrigo, uma espécie de submundo que a maioria de nós ignora ou faz por ignorar, trocando por uma esmola deixada cair num velho chapéu à beira de um qualquer passeio aquilo a que chama a sua consciência, ficando de bem com ela e provavelmente com a tal entidade a que chama Deus. Não. Henrique interroga-se e convida os outros a fazerem a mesma pergunta: E se eu fosse Deus? Henrique teve estudos, um emprego que a certa altura lhe tiraram e até uma casa onde viveu com a sua mulher que inexplicavelmente o abandonou. Percorrendo as ruas de Lisboa, Henrique vai mostrando a Fernando os locais onde vivem os sem-abrigo cujas histórias conhece e que merecem ser mais conhecidas pelos leitores do livro que ele sabe que Fernando vai escrever. São testemunhos fantásticos, quase inimagináveis, comoventes mas poderosos para que possamos criar dentro de nós próprios uma maior força de solidariedade. Henrique sugeriu ao autor que fosse com ele numa noite de Natal às visitas efectuadas regularmente aos domingos às estações das Gares do Oriente, Santa Apolónia e Rossio por um grupo de voluntários que distribui alimentos aos sem-abrigo que ali se acolhem. Fernando Correia conta-nos como foi possível assistir a momentos de grande alegria e felicidade mostrados naqueles rostos que diariamente nos aparecem nas nossas ruas solicitando ajuda. Mas era Natal e até houve lugar para prendas. Henrique não precisa de prendas. A única coisa que ele precisa e muito gostaria de alcançar era acabar com a falta de solidariedade que vê à sua volta. Como é possível que os responsáveis por este mundo que ele nos mostra através da lúcida escrita de Fernando Correia nada façam para que esta verdadeira calamidade desapareça. Por isso se interroga: E se eu fosse Deus?
Henrique levou o autor a conhecer de perto, entre outras, a história de Marília, de Natália, do Zé Maria, do Zeca e da Zélia, do Ti Chico e da sua Rosa, apenas alguns dos muitos sem-abrigo com os quais convivia. São testemunhos comoventes mas cheios daquela verdade que  nos mostra a indiferença das entidades governamentais perante uma verdadeira calamidade social. Este livro, as histórias que Henrique nos conta sobre o modo como vivem alguns sem-abrigo como ele, mas sem a sua capacidade de as enfrentar, rolando cada vez mais para uma sub-vida ou socorrendo-se da droga e da prostituição, as suas consequências na doença e até na perda de certas faculdades mentais, merece ser lido por todos os que sintam o desejo de melhorar de facto a humanidade fornecendo talvez o caminho para um mundo melhor.                                              

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CENAS DA VIDA AMERICANA

Clara Ferreira Alves


Confessando o quanto admiro a escritora e jornalista Clara Ferreira Alves, tomo a liberdade, que nunca fiz, de reproduzir a cinta que cobre esta sua obra para início do que farei o possível por dizer sobre o seu conteúdo. De facto está ali tudo o que a autora nos vai contar. “Estes são os dias da América: o poder do dinheiro, os bastidores da política, as malhas da guerra, o quotidiano dos que não têm voz”. Clara Ferreira Alves, como aliás tem referido por várias vezes nos seus artigos e em intervenções televisivas, conhece bem a América, o nome pelo qual são designados os Estados Unidos da América. Percorreu todos os estados de uma costa à outra, desde 1980 até aos dias de hoje. Em muitas das cidades permaneceu durante vários dias e teve a possibilidade de avaliar o modo de viver do povo americano, não deixando de notar que desde Reagan até aos dias de hoje com Trump, os presidentes não conseguiram fazer desaparecer o grande fosso que divide ricos e pobres. Afinal a América da Liberdade, o país tantas vezes desejado por aqueles que acreditavam que ali iriam encontrar um futuro radioso para si e muitas vezes também para a família, vive do poder do dinheiro infiltrado nos bastidores da política. Chegavam pobres, pensando poder ali viver com alguma dignidade e segurança quando na maior parte das vezes ficavam pior do que nos seus países de origem. Clara Ferreira Alves encontrou muitos desses emigrantes em pequenas cidades do interior de muitos dos estados. O sonho americano que eles imaginavam que iriam encontrar naquele país não chegara a concretizar-se. A autora analisa, investiga as possíveis razões e leva-nos a percorrer como era a América nos dias de Reagan, dos Bush, de Clinton, mesmo de Obama e até como vai ela com o actual Trump. Assistimos ao verdadeiro desenrolar dos episódios conhecidos durante esses vários mandatos. Mas esta obra consegue descrever-nos com a exactidão da veia jornalística, não só o como, mas também a razão porque aconteceram as inúmeras cenas que apenas todos nós conhecíamos das notícias que foram sendo divulgadas durante todos esses anos. E sem qualquer sombra de dúvida é possível concluir como afinal estas cenas da vida americana nos revelam ser sempre o poder do dinheiro dos mais ricos que, como sempre, acaba por vencer e deixa sem o mínimo conforto os que não conseguiram alcançar o ambicionado sonho americano, velhos vagabundos, drogados, negros e brancos desempregados e também mulheres. Mulheres, muitas mulheres sem família, sem filhos, que os maridos abandonaram para tentar qualquer outro caminho que aquela América lhes negou, deixando-as em perfeita miséria, sujeitas aos piores sacrifícios que nunca pensaram ter de suportar. É verdade que a autora não nega, como afirma peremptoriamente, que a América salvou a Europa em momentos da história em que tudo parecia ruir neste nosso continente. E de tal modo isso foi verdade que o século XX chegou a ter o nome de século americano. Em Nova York persiste uma vida turbulenta que nos dá a ideia de que tudo vai bem. As grandes salas de espectáculo enchem-se das elites que sempre persistiram. E os bons restaurantes não faliram, pelo menos por enquanto. É lá que uma certa gentalha se reúne para combinar as grandes fraudes. Central Park ainda existe. Aliás sempre existiu. Mas de dia é uma coisa diferente do que ali se passa de noite. Não é seguro. Por lá proliferam os vagabundos e assaltantes. Nós próprios assistimos a isto quando lá estivemos certa vez em serviço. E já havia gente sentada nos degraus das portas de saída de muitas casas, estendendo a mão, pedindo uma esmola que cairia ou não no chapéu colocado à sua frente. Assistimos a isto em muitas ruas não muito longe do centro de Nova York. Também eu fiquei desiludido nesse tempo, antes dos anos que Clara Ferreira Alves nos conta nesta sua obra que reúne muitos dos artigos que publicou desde 1980. E parece que no essencial nada mudou. Estas suas “Cenas da Vida Americana” servem de facto para ficarmos a conhecer melhor o que é a América. Não conseguimos transmitir aqui com muito pormenor a mais pequena ideia de uma tão vasta história. Apesar do que nós próprios podermos ter visto, tudo o que sabíamos da América ficou agora totalmente transformado naquilo que constitui a verdade vivida por Clara Ferreira Alves. Claro que termina com a análise possível do que acontece presentemente com Trump, o homem que segundo ela “quer destruir o sistema, o amante da força bruta e da guerra total, o ditador dos media, o Goebbels de uma ópera bufa, a crueldade claramente vista”. Aconselhamos vivamente esta leitura.

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UMA ESPERANÇA MAIS FORTE
DO QUE O MAR

Melissa Fleming


Este livro é um verdadeiro livro de amor, apesar de relatar uma tragédia e sobrevivência de uma refugiada. Se alguém perguntar como pode ser um livro de amor, basta dizer que essa refugiada antes de iniciar a viagem para fugir da Síria teve momentos com provas de grande amor quer pelo seu país martirizado como pelos seus familiares. Já também depois de iniciada a viagem encontrou um homem pelo qual se apaixonou e que viria a auxiliá-la para poderem continuar a fuga, embora algo de muito dramático tenha acontecido até chegar ao primeiro país da Europa que a levaria finalmente ao destino ambicioso de alcançar a Suécia onde reside actualmente, depois de ter perdido tudo e todos.
A autora Melissa Flemming é Directora de Comunicação e a porta-voz do Alto Comissariado das Nações unidas para os Refugiados e teve conhecimento da história da refugiada através do website grego. Sempre atenta a relatos de sobrevivência que demonstrem o drama dos refugiados e que possam transmitir ao público que apenas conhecem as notícias dos jornais, embora também estas elucidativas, a necessária empatia para que todos possamos contribuir com qualquer parcela de auxílio que esteja ao nosso alcance para acabar com o drama dos refugiados, Melissa procurou pelos meios ao seu alcance conhecer a refugiada Doaa quando ainda se encontrava em recuperação num hospital em Atenas. Na posse de diversos artigos, fotografias e relatos entretanto publicados na imprensa ateniense e não só, o livro dá-nos a conhecer a verdadeira história de Doaa que conseguiu, apesar de momentos de grande sofrimento ao relembrar factos passados e alguns deles muito recentes como a do naufrágio em que conseguiu resistir até ser recolhida pelos tripulantes de petroleiro que navegava no Mediterrâneo em direcção a Gibraltar que ficaram surpreendidos com a enormidade de cadáveres a boiar à superfície mas também o que lhes parecia serem os gritos de socorro que alguém gritava mais alem. Era Doaa pedindo socorro para duas meninas que segurava nos braços enquanto se agarrava à pequena bóia de que dispunha.
Neste livro que António Guterres classifica como de “Um livro admirável de uma autora que não o é menos”, é contada toda a história de Doaa desde a sua infância feliz na Síria quando este país ainda era um lugar pacífico até à actualidade, e devemos salientar que em 2016 Doaa Al Zamel recebeu o prémio OFID 2016 para o Desenvolvimento, atribuído pela OPEP, pela sua coragem e determinação. Tal como ela própria declara em “Nota de Doaa” no final do livro, “partilhou nele o seu sofrimento”. Trata-se apenas de uma pequena amostra das provações e da dor que os refugiados espalhados pelo mundo têm se suportar e de enfrentar. Sou apenas uma voz entre os milhões que, todos os dias, arriscam a vida para conseguir viver com dignidade.” E é isto na verdade o que podemos ler neste livro, juntando-lhe os episódios trágicos de alguém que apenas deseja encontrar um lugar onde fosse possível viver em paz, onde as crianças não morressem de fome ou por balas indiscriminadamente disparadas pelos grupos terroristas. E também as falsas promessas, pagas a peso de ouro com todas as suas economias, para conseguirem um lugar numa frágil embarcação que depois os traficantes desumanos e criminosos abandonam a meio do mar, sem combustível para alcançar terra firme, muitas vezes acabando mesmo por naufragar. Dir-se-á que todos sabemos desta tragédia dos refugiados, que nos revolta e lamentamos. Mas aqui, neste livro, temos um rosto que vamos acompanhando, uma história que parece decorrer a nosso lado, um exemplo bem real de todos os milhares de refugiados aos quais acontecerá algo semelhante que enchem os noticiários e os artigos dos jornais. Sim sabemos que alguns refugiados alcançam as praias do sul da Europa e vão ficando em acampamentos, deficientemente alojados, até que possam arranjar a desejada licença para alcançar um país que os receba, nomeadamente o nosso. Mas o que encontramos neste livro é toda a história da luta pela sobrevivência de uma refugiada, contada por uma admirável escritora. Ficamos mais conscientes do que é o drama dos refugiados. E isso é importante.

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O HOMEM  QUE NÃO TINHA IDADE

Fernando Correia



Se há coisas que se fazem com prazer é colocar aqui obras que o merecem e que, além disso, são escritas por grandes amigos. Se a primeira razão é por demais evidente, ou não estaria a ser referida neste lugar que criámos para os livros que amamos, já a segunda pode ser casual pela coincidência do sermos também amigos do autor. Mas compreende-se que traga maior satisfação. Fernando Correia, jornalista e homem do desporto, voz da rádio e da televisão admirada por muitos milhares de portugueses, é também um grande escritor com várias dezenas de livros abrangendo para além das obras de carácter desportivo, igualmente biografias, contos e ensaios. E quando, como aconteceu no seu anterior livro há cerca de um ano (também referido a seu tempo neste espaço) nos oferece agora de novo algo que nos transmite a sua forma de ser e de pensar, fica connosco a certeza de que ele entrou definitivamente numa das áreas que mais se pode admirar num escritor. É que para além de nos contar uma história, real como foi o caso da obra anterior ou semi-ficcional como este “Homem que não tinha idade”, ele se afirma, usando a sua escrita mais que perfeita, digna de pertencer aos privilegiados da literatura portuguesa (como se depreende da apresentação do livro feita por Manuel Sérgio), como um escritor do seu tempo que tem a responsabilidade de lançar um alerta contra algo de errado que ocorre na sociedade actual. A história de um João, homem dos oitentas, viúvo de alguém que muito amava, mas cujos filhos, com as suas vidas organizadas em casas próprias, resolvem colocá-lo, contra vontade, num lar de idosos, quando afinal ele se sentia ainda com capacidade para viver a sua vida, com direito a amar e ser amado, homem livre utilizando os meios que ainda encontrasse ao seu dispor mesmo em actividades intelectuais, é, sabemos todos, um retrato dos nossos dias. É. Mas não devia ser. E é essa denúncia numa espécie de grito que Fernando Correia lança. Não que seja felizmente a sua própria história. Mas Fernando e João têm a mesma idade. E Fernando sabe que apesar dos “oitentas” está no pleno uso das suas faculdades mentais. Apesar de a vida o ter atraiçoado com uma terrível doença que atingiu a mulher que tanto ama, ele  trabalha, desenvolve uma série de actividades à sua volta, tem amigos e sente-se verdadeiramente um Homem que não tem idade. Tal como afirma nesta sua obra, a idade cronológica, aquela que lhe diz no calendário que no dia tantos de tal será um velho, nada significa. Infelizmente são muitos os velhos de calendário que são abandonados, muitas vezes por aqueles que criaram, e que enchem esses depósitos de trapos e sombras. Neste livro, João não aceita ficar naquele quarto que os filhos diziam ser muito bonito, com duas janelas que não se abriam, um roupeiro, uma secretária, um cadeirão, uma jarra com flores de campo e a televisão, sempre que o desejasse, na sala de convívio. E, sentindo-se ainda na plenitude das suas principais aptidões, com um desejo enorme de viver, com forças para encontrar outros rumos que lhe trouxessem a alegria de viver, a amizade e até o amor (porque não?), diferente mas igualmente amor, João resolve fugir, levando consigo o indispensável. Dinheiro, cartão de cidadão, cartão multibanco para acesso à reforma de jornalista, o telemóvel e o retrato de Joana que nunca abandonava.
É então que Fernando Correia nos descreve de maneira original, numa espécie de  retrocesso desde os anos actuais aos primeiros anos do seu nascimento, as várias etapas da vida de João, o Homem que não quis ficar no asilo-depósito de velhos onde os filhos o tinham deixado. E todas essas etapas são descritas pelo autor com os pormenores mais relevantes de uma vida ficcionada, mas que não deixam de levantar os seus criteriosos comentários relacionados com a passagem dos anos pela qual todos nós passamos. Até que voltamos novamente aos dias do presente vivido por João, aquele que não deseja ser velho porque não se sente velho mas pelo contrário um homem com a enorme capacidade de admirar toda a Natureza que o rodeia e da qual faz parte. Chega o momento de Fernando Correia abrir o seu próprio espírito, vestindo a pele de João onde afinal se reflecte como por encanto a sua personalidade forte, tudo o que de mais constitui o seu pensamento de um grande humanista. E é ao mesmo tempo o autor que domina com excepcional maestria o poder da escrita. Tudo naquelas páginas que nos vão conduzir a um final inesperado revela o seu valor na criação literária. Ele não utiliza os artifícios fáceis no sentido de agradarem ao grande público dos dias de hoje onde são infelizmente raros os verdadeiros autores. Fernando Correia, ele também Um Homem Que Não Tem Idade, reafirma neste seu romance o grande poder da palavra escrita e oferece ao leitor momentos de reflexão que nos conduzem não só à introspecção como também – e isso é muito importante – a uma consciente análise do mundo que nos rodeia. Muito mais poderia aqui deixar sobre o valor literário desta obra mas julgamos estar suficientemente provado que ela merece, como tem sido sempre o critério das nossas escolhas, este seu lugar no nosso Amor pelos Livros. Que ela mereça como sempre a atenção de quem nos visita.


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A CIÊNCIA
NO GRANDE TEATRO
DO MUNDO
António Manuel Baptista

HOMENAGEM

Esta importante obra da autoria de um dos nossos grandes investigadores, nomeadamente em física nuclear e por tal premiado e distinguido internacionalmente, professor universitário e grande divulgador da ciência em palestras, programas de rádio e de televisão, autor de livros e estudos e artigos em revistas internacionais, aparece aqui e agora por duas razões. A primeira por ser uma forma de eu homenagear um grande amigo, que acaba de nos deixar no passado dia 6 de Junho, após um longo período de sofrimento mas que manteve quase até ao fim um cérebro fantástico com capacidade de com ele continuarmos sempre a aprender muito sobre a ciência e a vida. Só agora também, porque esta sua obra que nos ofereceu, como aliás as anteriores, foi a última que publicou na importante série “Ciência Aberta” da Gradiva. Mas publicada em 1998, já se encontrava esgotada quando iniciámos este nosso projecto “Amor pelos Livros” e assim se manteve até ao presente. Com a sua divulgação aqui neste momento e até que haja, como julgamos merecida, uma reedição, vamos naturalmente falar um pouco dela e do autor e daremos ao mesmo tempo, como é nosso hábito, a possibilidade de serem lidos pelos nossos visitantes alguns excertos que, naturalmente não chegam para dar a conhecer totalmente a sua importância. António Manuel Baptista com quem, como já se depreendeu, desenvolvemos uma grande amizade, desde que na rádio realizava o seu programa “ A Ciência ao Serviço do Homem”, que lhe valeu o Prémio de Imprensa (Rádio) em 1969, era realmente uma pessoa extraordinária. Considerado, como aliás foi salientado no recente comunicado do MEC um homem extremamente culto, conversador vivo e inteligente era também um homem generoso. Os seus conhecimentos científicos que sabia divulgar com uma inexcedível clareza eram assim colocados ao sabor de quem o ouvia ou lia devido à sua grande generosidade. E esta sua qualidade esteve sempre patente, tanto na sua vida profissional como na sua vida particular. Disso demos conta muitas vezes e até eu próprio me interrogava como ele quase me considerava seu “par” – eu um simples jornalista da área da ciência – quando falava comigo ou colocava uma dedicatória nos seus livros que me oferecia como é o caso que aqui reproduzo 
“velho companheiro de boas batalhas (todas certas mesmo que os resultados estivessem errados)”. Só um amigo generoso poderia escrever isto de quem, como eu, só poderia ter batalhas, que as tive, mas num campo muito inferior ao seu. Ele sim, sabia como enfrentar os debates de alto nível, defendendo as suas ideias a favor de uma cultura científica, essencial para o progresso deste país. Nesta sua obra que aqui trazemos, António Manuel Baptista consegue descrever o caminho percorrido desde que aparece aquilo a que se pode chamar a filosofia natural até à filosofia experimental (título aliás do primeiro capítulo), isto é, a ciência. Desde o século VI a.C. com Tales de Mileto onde terão sido dados os primeiros passos para “pensar racionalmente a natureza sem o constante recurso à intervenção de divindades e mitos”, vão desfilando no grande Teatro do Mundo, os grandes filósofos de que citamos naturalmente Pitágoras, Platão e Sócrates, Arquimedes, mais tarde Kepler, Galileu ou Newton, enfim Einstein, Bohr, Heisemberg, todos os grandes cientistas/filósofos ou apenas com uma mais significativa incidência numa dessas duas áreas vão aparecendo no grande palco do teatro científico que abrange os quatro cantos do mundo. E este é verdadeiramente um mundo a cinco dimensões pois inclui também a importante coordenada do tempo. António Manuel Baptista, com a sua inexcedível sabedoria, descreve-nos todo esse longo desfile de grandes personagens na história da ciência mas a sua contribuição para o esse conhecimento vai mais longe do que isso. Como se todas as teorias ali descritas fossem, como aliás sempre defendeu, muito simples, transforma-se numa companhia admirável que nos parece estar ao nosso lado, conversando amigavelmente sobre algo que, sendo complicado, afinal se torna muito simples. Simples, é claro, porque ele assim nos faz ver e crer. Porque ele sabe. E sabe como nos há-de explicar. Aliás tinha uma curiosa máxima que seguia rigorosamente: “Se não conseguirmos explicar de forma elementar conceitos científicos complexos é porque não os dominamos”. E arriscamo-nos a pensar que foi essa necessidade de absorver aquilo que a ciência lhe apresentava que o levou ao seu fervor de, apresentada que fosse a oportunidade, divulgar o que sabia com uma simplicidade que ultrapassava os limites convencionais conhecidos até aí. Para além de nos falar da história da ciência e da filosofia da ciência, apresenta-nos algo que muito defendia como as relações da ciência com a sociedade e o ensino mas também com a literatura, nomeadamente a poesia. Um dia, sabendo da sua grande admiração por muitos poetas, nomeadamente Rilke que o levara a aprender um pouco de alemão para o ler no original, perguntei-lhe se, sendo lugar comum dizer-se que os poetas descrevem situações incompreensíveis, não haveria uma certa dicotomia entre poesia e ciência. “Claro que não”, respondeu: “Poesia e ciência são pontes para o mesmo território”. Aliás, ao longo das páginas deste livro, não são raras as ocasiões em que refere as relações entre as duas. Como também é conhecido - e muitas vezes o confessou ser um poeta “doméstico” - apenas escrevia para si e para a família mas sem publicar, excepção de algo que o foi por iniciativa da filha, a editora Cristina Ovídio. Mas não quero afastar-me do prometido que era dizer o que pensava desta obra que aqui trouxe desta vez. Sendo muito difícil ir mais além, tão enorme é a importância, a variedade nas formas de abordagem, os aspectos que dizem respeito à ciência, os seus intervenientes, os criadores, os filósofos da ciência, um mundo infinito de descobertas ou conceitos que nos são oferecidos para deles ter um melhor conhecimento, para que se possa absorver e viver cultura, que apenas me resta deixar o habitual convite para lerem alguns excertos. Foi difícil a escolha, tantas eram as páginas que desejava que todos lessem. É talvez a obra que maior quantidade delas ficarão a vossa disposição. Que gostem e apreciem, até que venha a ser reeditada. Fica a homenagem ao insigne investigador físico nuclear, um grande amigo e grande divulgador da ciência.


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O BOSÃO DO JOÃO
88 POEMAS COM CIÊNCIAS
Rui Malhó

Ao deparar com este título, o leitor mais informado pensará que ele se refere a tema relacionado com a ciência nomeadamente com a física. Todos se recordam de há dois anos ter sido finalmente descoberto o Bosão de Higgs no grande acelerador de partículas do CERN, acontecimento recebido com grande entusiasmo por toda a comunidade científica e também pela comunicação social, pois essa partícula tinha sido prevista pelo físico Peter Higgs em 1964 e era portanto esperada há décadas. O Bosão do João poderia portanto ser igualmente a previsão de uma nova partícula. Mas nada disso. O autor deste livro, Rui Malhó, é de facto um cientista, doutorado em Biologia pela Universidade de Lisboa - tendo escolhido para a sua tese oEstudo da germinação do grão de pólen” - actualmente Professor da Faculdade de Ciências da mesma universidade e membro da Academia de Ciências, sendo autor e co-autor em dezenas de artigos em revistas científicas internacionais. Folheando o livro, nota-se de imediato que as suas páginas são preenchidas por poemas e numa observação mais cuidada à capa pode ler-se como sub-título “88 poemas com ciências”. Trata-se portanto de um livro de poesia. Rui Malhó não é poeta e os poemas foram escolhidos por ele devido à relação que cada um deles tem com a ciência. E o facto de ter escolhido “88” não foi por acaso. Estivemos numa das apresentações de lançamento do livro, precisamente no dia Mundial da Poesia e não nos ocorreu perguntar-lhe a razão da escolha desse número. Mas mesmo que o tenha feito por outras razões, podemos reparar que a junção desses dois algarismos para formar um número tem algo que nos leva a pensar em reflexo, o que tem a ver com propriedades da luz e da interposição de determinados materiais; e também o símbolo oito possui dois círculos que se tocam, numa rigorosa simetria; física, geometria, matemática claro, a ciência enfim. Motivo ou não para esse pormenor do subtítulo, o livro que o autor nos apresenta vem demonstrar o que algumas pessoas esquecem. Poesia e ciência ou arte e ciência sempre tiveram uma ligação, aliás necessária na opinião de importantes vultos da cultura. Tal como relembra Sampaio da Nóvoa no prefácio do livro de Rui Malhó, já Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, afirmara que “o artista conhecerá melhor o mundo, e até a sua arte, se souber matemática e física e biologia e química. O cientista compreenderá melhor as coisas e também a sua ciência, se se abrir à música, à pintura, à arte.” Rui Malhó, o cientista, confessa o seu gosto pela poesia que terá nascido durante as aulas de português no secundário. E parecendo estar afinal tão longe dos seus “textos científicos objectivos, pragmáticos, descritivos”, facilmente concluímos que, ao decidir publicar este livro, ele continua a aceitar a poesia como aliada imprescindível na sua vivência actual, como professor e investigador. Curiosamente, a ideia terá nascido do encontro casual com uma obra intitulada “a quark for Mr. Mark”, ao consultar estantes da Popular Science numa livraria britânica. O livro era afinal uma compilação de 101 poemas sobre ciência. Abandonada a primitiva hipótese de o traduzir para português, pensou – e ainda bem – em fazer uma escolha do mesmo género entre os nossos poetas que tivessem abordado a ciência nos seus poemas. De igual modo havia que escolher para título uma partícula elementar tal como era o caso de quark. Nada melhor do que o bosão tão falado recentemente e para manter a rima poética essa partícula seria do João. Depois de um trabalho certamente exaustivo na escolha apropriada, pois são muitos os nossos poetas que abordam temas de ciência nos seus poemas, decidiu-se pelos 88 que agora nos apresenta. Foi com enorme prazer que constatámos ser António Gedeão o primeiro a figurar nesta concepção da obra de Rui Malhó, nela figurando depois várias vezes. Rómulo de Carvalho, seu verdadeiro nome, foi nosso professor de físico-quimica no Liceu Pedro Nunes e com ele mantivemos uma relação de grande amizade, ultrapassando mesmo a de seu simples aluno, pois viria a ter grande influência noutra área da minha vida profissional. Nos seus poemas como em todos os dos restantes poetas que foram escolhidos por Rui Malhó a ciência está presente e é mesmo explicada com grande força poética. E não é só porque a poesia serve a ciência mas também em determinados momentos verificamos que a ciência alcança valores onde vibra a poesia. As duas forças como que se entrelaçam e ajudam dando um melhor sentido às ideias expressas. E se a poesia sempre foi uma forma literária que melhor transmite o que se passa no mais íntimo de um ser humano, sentimentos, desejos ou paixões, ela consegue explicar de forma mais límpida e compreensível para quem a lê, fenómenos científicos que de outra forma lhes poderiam passar simplesmente despercebidos, ficando longe do seu real significado. Mais conhecidos uns, menos conhecidos outros, o prazer de encontrar neste livro poetas que nos transmitem a sua arte atravessada por uma determinada descrição científica, em perfeita consonância, porque rima é também som, faz aumentar a nossa capacidade de abranger melhor cada uma das duas áreas. E este é um acréscimo real no valor desta obra que aqui depositamos no nosso Amor pelos Livros.

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PISO 3
QUARTO
313
Fernando Correia

Apetece-me dizer que este é mais um livro que não devia ter sido escrito. E no entanto é um livro admiravelmente escrito por um grande amigo. Mas para que não tivesse sido escrito era necessário que ele não sofresse, que neste nosso mundo não existissem dores e que tudo fosse perfeito, não existindo doenças como aquela que atingiu sua mulher, para as quais se aguarda uma cura que tarda em aparecer. E assim, como aliás tem sido dito e escrito, houve a coragem de o escrever e, sendo um livro nascido da dor, pode transmitir algum consolo e felicidade. Fernando Correia, meu companheiro de tantos anos, a voz da Rádio Portuguesa que toda a gente conhece, o talentoso homem do desporto e da Televisão, cujos relatos e comentários dos acontecimentos desportivos são ouvidos por muitos milhares de pessoas que, antes de o saberem, nestes dias mais recentes, não imaginavam o que se escondia há já alguns anos na sua vida íntima, perante o terrível Alzheimer que atinge a sua mulher, teve também a coragem de nos revelar neste livro a sua dolorosa experiência num confessado intuito de ajudar todos os que se confrontam com esta doença nos seus familiares mas também preparando aqueles que ainda não conhecem os seus efeitos. Afinal, contrariamente aos meus desejos, este livro tinha mesmo de existir. Que Fernando Correia era, para além de homem do desporto, um notável escritor com obras de carácter desportivo mas igualmente ensaios, biografias, contos, etc. num total de mais de três dezenas de títulos, já alguns de nós sabíamos. Outros eventualmente, mais longe da literatura e seus autores, não lhe conheciam tais qualidades. E é com essa qualidade de primoroso escritor que ele consegue dar-nos agora, rompendo contra a anterior reserva, autorizado que foi pela restante e numerosa família, uma obra ímpar mais do que necessária pela ajuda que certamente vai trazer a muitos leitores. Criterioso nos mais pequenos pormenores, ele relata os momentos vividos com Vera, sua mulher, desde que se começou a notar que alguma coisa de anormal acontecia, os desvios de atenção, a falta de memória, os gestos e palavras destituídos do momento em que se davam e portanto despropositados, depois as insónias, as irritações e zangas inesperadas, mais tarde aquele olhar para o vazio e a tudo vamos assistindo com o seu relato informal mas exacto. Depois as visitas aos médicos, o inevitável internamento para a tentativa da recuperação cognitiva, quando o mundo de Vera já não era o nosso nem o de Fernando, nem o das filhas. Ela vivia numa outra onda sem poder sentir o mundo à sua volta. Mas a recuperação como em tantos outros casos teve o desfecho que ele apesar de tudo não esperava. Nem Vera talvez. Nada se conseguiu. E portanto só era possível o internamento naquele “Quarto 313” do Piso 3. E aí temos então, desde esse momento até hoje todo o desenrolar do que são os dias intermináveis de Vera, passando pela necessidade de continuar a conviver com um dispositivo especial para se alimentar pois tinha perdido a vontade natural de o fazer. Mais tarde, num acesso de raiva ou desespero, viria a revolta de o arrancar e curiosamente, depois do recobro da anestesia para lhe ser colocado um novo dispositivo, acordou com fome e murmurou “comida”. Que alegria para Fernando e toda a família que tentavam festejar ali na Casa de Saúde o dia dos seus anos! Ele correu ao bar, comprou a sanduíche de queijo que ela acabaria por comer pela sua própria mão. Diz o poeta, algures, que “a vida é feita destes pequenos nadas”. Noutro contexto, claro, Fernando Correia vive estes pequenos nadas de um regresso de Vera. E são muitos os que nos vai contando neste livro maravilhoso, confessando a importância que isso tem não só para ele e para as filhas, como também – quem sabe – para a própria Vera. Ele vive sempre na esperança de que algo virá a acontecer. E para isso, é necessário transmitir essa mesma esperança aos doentes de Alzheimer, mesmo que pareça que não nos compreendem, que não nos reconhecem e nada nos digam, murmurando simples monossílabos que são talvez as suas palavras naquele mundo estranho onde não conseguimos entrar. Para além da experiência e da dolorosa história do autor, no confronto com a realidade da terrível doença que atinge a sua mulher, encontramos toda uma série de informações que ele foi recolhendo na tentativa de saber mais e mais sobre possíveis causas, meios de atenuar os sofrimentos vividos pelos doentes, as investigações em curso para alcançar a cura num futuro que se deseja para amanhã, não perdendo nunca a esperança de que chegue a tempo para os que dela precisam já hoje. É portanto também um livro de grande utilidade para os que estejam a viver esse drama de acompanhar alguém com a doença ou preparando-nos para a eventualidade, até ao momento de causa inexplicável, de que o mesmo venha a acontecer. Uma coisa nos ensina, se é que para muitos é necessário lembrar, sabemos muito pouco sobre a maneira como funciona o cérebro humano. Embora atingido por uma qualquer grave afecção que impede por exemplo a comunicação normal com quem contacta, não deixa de pertencer a um ser, nosso semelhante, que está vivo e necessita da nossa presença e do nosso auxílio. E isso aprendemos se ainda o não sabíamos. Muito do que Fernando Correia admirou e amou em Vera continua nela. Relendo algo das palavras do Professor Manuel Sérgio no prefácio, este livro é uma preciosidade para as “famílias que tenham, no seu seio, um doente de patologia igual ou semelhante”. Fernando Correia, o jornalista e escritor que o país inteiro admira e aplaude, escreveu-o num acto que não só o liberta de pequenos erros que então julga ter cometido (e quem o poderá julgar?), para que não se repitam, para que melhor se possam acompanhar os doentes de Alzheimer, fazendo o que agora faz juntamente com as filhas e mesmo com os pequenos netos, mas também porque é um homem extremamente generoso, como aliás sempre o conhecemos na vida profissional que tivemos lado a lado. Importante também é a esperança que nunca o abandona de que a solução chegará um dia. E então voltarão os dois a sorrir. No final do seu livro, acompanhando um poema de Ary dos Santos, amigo comum, e também numa espécie de premonição ao drama que hoje vivem, ele diz: “Estou aqui, Vera. A sorrir para ti”. E eu, meu grande amigo, fazendo uma excepção ao que é habitual escrever aqui digo também: Obrigado Fernando. Esse dia há-de chegar!
       

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O “GRANDE JORNALZINHO”
DA RUA
DOS CALAFATES
Pedro Foyos

Este “Grande Jornalzinho” é o “Diário de Notícias”. E nasceu na Rua dos Calafates. O livro é a história dos seus primeiros anos desde que aquela folhinha, saiu à rua a 29 de Dezembro de 1864, composta por alguns dos mais ilustres tipógrafos daquele tempo, concretizando o sonho do seu director Eduardo Coelho. Foi precisamente há 150 anos. Comprometia-se então, como aliás estava escrito numa pequena coluna, curiosamente à esquerda, e dirigida “Ao público”, a “interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e comprehensível a todas as intelligências” e mais adiante afirmando concisamente como aliás também prometia ser “um jornal de todos e para todos”. Livro profusamente ilustrado, com reproduções e desenhos que ilustravam nesse tempo alguns dos artigos antes de, a seu tempo, virem a ser substituídos pelas primeiras fotografias dos repórteres. E depois a mudança para o edifício da Av. da Liberdade, curiosamente após ter sido dado o nome de Rua do Diário de Notícias à Rua dos Calafates em pleno Bairro Alto. Enfim, um olhar criterioso, profundo, histórico, rico de imagens e factos para relembrar ou dar a conhecer a muitos dos que nas últimas décadas não se dariam conta do que foi essa jornada tão cheia de grandes personalidades da literatura e da arte desse tempo que podemos agora acompanhar com todo o pormenor. E quem melhor do que um homem como Pedro Foyos, grande jornalista com uma notável carreira profissional, tendo integrado a chefia da Redacção do "Diário de Notícias", após catorze anos como redactor do "República" (único diário de oposição à Ditadura, dirigido pelo democrata Raul Rego), escritor de várias obras, não só da historiografia da imprensa como também de ficção, director de várias revistas periódicas, nomeadamente de fotografia, para nos dar esta “obra deliciosa e didáctica” nas palavras de Ernesto Rodrigues, “magnífico e tão necessário relato para a nossa memória colectiva”, segundo a jornalista e escritora Edite Esteves? Arriscamos dizer que, tal como está delineado, o rigor e a forma como nos descreve no essencial dos pormenores, na identificação de lugares e de grandes personagens que se cruzaram na intensa vida deste grande jornal diário que começou a ser vendido por dez reis, uma simples moeda daquele tempo, e que, tal foi o interesse com que foi recebido, quase duplicava a sua tiragem dos primeiros 5.000 exemplares para os 9.600 ao fim de um ano, não conhecemos ninguém que igualasse esta proeza jornalística. O autor descreve o ambiente que rodeava o aparecimento do “Grande Jornalzinho”, como foi designado pelo escritor Bulhão Pato. 
Não esqueçamos que se vivia a Monarquia com o Rei Dom Luiz, só uma minoria de vinte por cento da população urbana estava alfabetizada mas para esses a compra daquela nova publicação diária, se bem que a sua compra constituísse um acto de certo modo social, era também o acesso ao prometido mundo cultural que se anunciara no acto inaugural e ao relativo conhecimento da actualidade dentro e fora do país, pois apenas uma década passada e aparece pela primeira vez e na primeira página um mapa do Theatro da Guerra Russo-Turca. Aparece o verdadeiro jornalismo gráfico com as primeiras reportagens ilustradas por meio de desenhos. E esse foi um esforço conseguido pelos responsáveis da redacção e seus colaboradores. A leitura desta obra, acompanhada pelas ilustrações desse tempo e depois as fotografias passadas a desenho, mais tarde à sua própria impressão marcando a chegada dos repórteres fotográficos ao mundo da imprensa diária, torna-se uma viagem fascinante que acompanhamos com redobrado interesse. Quase conseguimos assistir, em directo, ao que aconteceu na redacção do jornal quando, já fechada a primeira página, a notícia do regicídio lança um verdadeiro alvoroço entre jornalistas e tipógrafos (não esquecer que se vivia ainda na época das letras de chumbo alinhadas cuidadosamente para se proceder à impressão gráfica). Mas o jornalzinho acabou por sair à rua ostentando no cabeçalho o “Gravíssimo attentado contra a família real”. Recorda-se a criação dos jornais infantis lançados pela administração. Pessoalmente, vou recordando um pouco da minha infância. Mas não só. Algo me liga também a esse tempo, até porque o director do “Cavaleiro Andante”, o escritor e poeta Adolfo Simões Muller, é de certo modo meu familiar. Vamos assistir também à aparição do ardina na cidade, os rapazes que distribuíam os jornais, correndo pelas ruas, subindo às encostas, a todos levando as últimas notícias. Pedro Foyos reserva também algumas riquíssimas páginas para nos dar, desde 1865 com o “Assassinato do Presidente Lincoln” a 1933 quando a “Fina Flor da Sociedade Portuguesa vem de longe para visitar a Feira do Campo Grande em Lisboa”, uma série de pequenas e grandes notícias que talvez estivessem perdidas no tempo se não estivessem agora aqui reproduzidas, todas elas acompanhadas das respectivas ilustrações desse tempo, assim como do seu descritivo temporal feito agora pelo autor. E isso também faz deste livro um documento valioso para a história do Jornalismo em Portugal. Mas a pérola, ou - como é costume dizer-se - a cereja no cimo do bolo, ainda fica reservada para o final, onde podemos ler uma curiosa entrevista póstuma a Eduardo Coelho, cofundador e primeiro director do “Diário de Notícias”, da autoria de Maria Augusta Silva, jornalista e escritora de reconhecidos méritos, esposa de Pedro Foyos, resultando de uma proposta feita em 1984 ao director Mário Mesquita e que a insigne jornalista consegue dar-nos, após pesquisa e consulta a inúmeros textos do primeiro director do Jornalzinho, neles se baseando para ser, ao invés do habitual, conduzida às perguntas que lhe deveria fazer. Espero ter conseguido demonstrar, com a minha humilde análise a esta obra, o interesse que ela representa no panorama literário português, o seu valor e quanto merece ser lida e apreciada.



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SIMONE DE BEAUVOIR
O SEGUNDO SEXO

A reedição em Portugal daquele que é talvez, para muitos de nós, o mais famoso livro de Simone de Beauvoir, continua a ser a prova indiscutível da necessidade de dar a conhecer ou relembrar no mundo actual os princípios de igualdade de género e solidariedade que a autora sempre defendeu e que constituíram o seu universo filosófico. Para aqueles que como eu recordamos os dias que marcaram o desenrolar dos movimentos de Maio de 68, nos quais os jovens reclamavam a igualdade como direito universal, têm presente a sua intervenção nessas manifestações, juntamente com Sartre, ambos lutando sempre por aquilo que eram as suas convicções mais prementes, um mundo onde o indivíduo não seja apenas um número mas onde todos possam ser activos intervenientes na história colectiva. E não é por acaso que trazemos aqui Sartre. É que a vida amorosa que ambos tiveram não os obrigava a qualquer submissão de qualquer das partes e muito menos da mulher em face do homem. Coerente com o seu pensamento, Simone vivia aquilo que defendia e que expressa com veemência nesta obra agora reeditada. Ela não deseja ser apenas o ”outro”, como os homens consideraram a mulher ao longo de toda a história, como se houvesse e de facto assim acontecia na prática um ser diferente, provavelmente ao qual eram atribuídas funções que eles não queriam desempenhar nem podiam, assim julgavam. Simone defende que esse outro existe mas apenas se justificar o ser autónomo com a condição feminina. Esta errada condição feminina não é, não pode ser, como era considerada, referente apenas à natureza biológica da mulher, até aí imposta pela sociedade, mas muito mais do que isso, a nota autónoma da diferença que pode caracterizar uma classe. Simone era de facto na sua vida privada, na vida amorosa, na actividade literária que não se cansava de exercer, em livros e revistas várias, o verdadeiro ícone do feminismo e que ainda perdura nos dias de hoje, onde apesar do muito que a mulher já alcançou nos últimos anos, a igualdade plena no que diz respeito aos poderes que lhe possam ser conferidos na sociedade ainda não foi alcançada. E por isso, esta reedição da sua obra máxima, “o Segundo Sexo”, se tornará certamente num êxito que não pode passar despercebido às gerações actuais. A destruição dos mitos que foram criados, das concepções mas também dos erros defendidos até por nomes famosos da literatura mundial, os princípios filosóficos mas também a psicanálise, o que pode significar realmente a mulher, o que ela é e pode representar nas sociedades modernas, mas que na maior parte dos casos ainda não alcançou, tudo isso ali está. Acompanhamos todo o caminho percorrido pela condição feminina desde o Antigo Egipto, Atenas ou Roma, até à Idade Média onde a mulher conservou ainda alguns privilégios, a dicotomia do cristianismo, a chegada do Renascimento, a Idade Moderna ou a simples conquista do direito de voto e os primeiros movimentos feministas soviéticos. O percurso, ao longo de todas essas épocas e etapas, vivido pela chamada condição feminina é descrito e estudado minuciosamente. Ela que até escreve no início desta sua obra ter hesitado “muito tempo em escrever um livro sobre a mulher. O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo.” conseguiu fazer uma análise histórica e filosófica da presença da mulher em toda a série de actividades que desempenhou ou a fizeram desempenhar mas sempre com carácter de subalternidade e não na igualdade de poderes e direitos pela qual lutará até aos seus últimos dias. 
Desmontando o mito milenar do "eterno feminino", uma frase estabelece uma ruptura irreversível: "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher". A dualidade dos sexos nunca deveria ter levado a que o homem saísse sempre o vencedor sobre a mulher. Simone de Beauvoir e a sua obra muito contribuíram, a par de outras corajosas personalidades, para que este estado de coisas tenha melhorado mas a plenitude da sua razão ainda não foi alcançada. E por isso existem uma série de movimentos feministas, um pouco por todo o lado, até nos países mais radicais do extremo oriente onde a luta prossegue mas onde uma jovem de 17 anos, a paquistanesa Malala Yousafzai, defendendo, entre outros direitos, precisamente os da educação das jovens meninas, lutando até às mais atrozes consequências, consegue obter o Prémio Nobel da Paz em 2014. Todos julgamos e desejamos que esteja em vias de se formar uma nova concepção da sociedade baseada na democracia plena, uma aliança do socialismo e da liberdade. Porque socialismo e liberdade são inseparáveis. E como diz Simone “ uma volta ao passado não é mais possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os homens assumam sem reserva a situação que se vem criando; somente então a mulher poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de Laforgue: "Ó moças, quando sereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem segunda intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de mãos?" (…) "Então ela será plenamente um ser humano (e citando Arthur Rimbaud) "quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem — até hoje abominável — tendo-lhe dado a alforria ".

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SIMONE DE BEAUVOIR
MAL-ENTENDIDO EM MOSCOVO

Com a reedição de “O Segundo Sexo” a editora lançou também uma célebre novela de Simone de Beauvoir que esteve para fazer parte da sua colectânea La Femme Rompue (A mulher destruída, em português) mas tal não aconteceu e de facto, escrita quase vinte anos depois da edição em França da sua grande obra, esta pequena novela ajuda-nos eventualmente a perceber melhor como vivia esta grande escritora, completamente de acordo (como aliás era de esperar) com as ideias e pensamentos que defendia. Mal-entendido em Moscovo conta-nos alguns momentos, ou melhor alguns dias, vividos por um casal de professores reformados, atravessando aquele período de crise habitual dos muitos anos passados em conjunto. Mas após as primeiras páginas da sua leitura facilmente depreendemos que ele, André, o marido, é nem mais nem menos que Jean Paul Sartre e ela, Nicole, é Simone de Beauvoir. Portanto o desenrolar das diversas situações, numa viagem à União Soviética, são verdadeiros retratos autobiográficos. E, sem querer sentir algum pecadilho por entrar na intimidade da vida do casal, o que aliás Simone certamente, ao escrevê-la, teve a plena consciência de que o estava a permitir, esta sua novela, riquíssima de diálogos que nos transmitem efusivamente a maneira de pensar dessas duas grandes figuras, dá-nos a sensação de estarmos ali a viver com eles, o encontro e o desencontro por palavras ditas ou apenas pensadas por cada um. Em Moscovo eles têm consigo a presença de Macha que seria a filha do primeiro casamento de André (Sartre teve várias ligações nomeadamente com jovens soviéticas não sendo oficialmente garantido que delas tivesse filhos). Mas na novela, a existência de Macha serve para entre os dois elementos do casal se instalar o possível ciúme que aliás parece ter sido mais verídico no caso de Sartre do que de Simone. Nicole também teria – na novela – um filho chamado Philip que ficara em Paris. Um e outro caso irão ser aproveitados na novela para a defesa ou ataque, género André: “…nunca pensei que ela te aborrecia.”. Nicole: “mas é uma terceira pessoa entre nós”. André: “É o que muitas vezes penso quando trazes o Philip para passar o fim-de-semana connosco.” Um exemplo apenas do muito que se passa neste Mal-entendido em Moscovo. E também a desilusão de um e do outro face às diferenças notadas com o que teria sido em viagens anteriores e esta de agora à então União Soviética, o que de facto também é auto-biográfico, embora mais de Simone do que de Sartre. Aliás esta óptima novela prende-nos de tal forma que só paramos no final. Por isso – e não só – ela aqui está como merece e porque tanto significa do pensamento e vivência da autora. Bem merece este lugar no meu Amor pelos Livros, ela, Simone de Beauvoir, que confessava “ter uma paixão violenta pelos livros”. Voltaremos, assim o creio, a tê-la aqui na esperada reedição de outra obras.


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A TEORIA DE TUDO
Stephen Hawking

No momento em que se exibe em todo o mundo o filme que esteve nomeado para os Óscars, com o mesmo nome, será perfeitamente normal que os espectadores recorram  à leitura da sua famosa obra para melhor conhecerem como aquele que é considerado um dos maiores cientistas da actualidade, o maior físico teórico desde Einstein, revela ao mundo a sua Teoria de Tudo. Conhecida a sua vida difícil mas corajosa, lutando contra uma doença que desde a juventude lhe foi destruindo progressivamente todos os músculos do corpo, deixando-o fisicamente inoperante, apenas conservando a prodigiosa capacidade da sua mente brilhante, é quase irónico que tenha dado ao mundo o conhecimento de todas as leis que regulam o universo. Ultrapassando tudo o que até então tinha sido defendido e afirmado pelos seus antecessores no domínio da astrofísica e mesmo dos seus pares na física teórica, Stephen Hawking conseguiu chegar a conclusões sobre as origens do universo que abalaram grande parte do mundo científico. E o mais espantoso neste seu livro é conseguir explicar teorias tão complexas com exemplos simples, alguns retirados da nossa vida quotidiana. Aliás a divulgação da ciência sempre foi considerada por ele com a preocupação de poder ser compreendida não apenas pelos cientistas mas pelo público em geral, mesmo por aqueles que apenas tenham o mínimo das noções eventualmente adquiridas durante a sua formação ou na simples leitura de alguns textos de divulgação científica. Este seu livro, editado entre nós em 2010, mas de novo com grande procura no mercado, em parte pelo sucesso obtido pelo filme da sua biografia e o Óscar com que foi galardoado o actor que desempenha o difícil papel do cientista, Stephen Hawking apresenta-nos uma série de 7 capítulos que denomina lições onde, conforme nos diz, “tenta resumir o que pensamos ser a história do universo, do Big Bang aos buracos negros”. Mas recorda-nos igualmente o que pensavam Aristóteles já em 340 a.C. e depois Ptolomeu, Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e mais recentemente Hubble. Naturalmente diferentes e de acordo o que era conhecido em diversas etapas da nossa civilização, vamos acompanhando o que foram os seus estudos e investigações sobre a Terra e o espaço que nos rodeia, tudo aquilo que ficou para a história como uma espécie de caminho para a descoberta e compreensão do Universo, de que somos apenas uma pequeníssima parte. O problema principal que nos mais recentes séculos se colocava era a questão do início do Universo. Mas também do nosso lugar nele e de tudo o que existe muito para além do que observamos quando em determinados momentos olhamos para aquilo a que resolvemos chamar céu. Se nos interrogamos sobre o modo como tudo começou, também estamos interessados em saber para onde caminhamos. Stephen Hawking dá-nos uma visão muito precisa e que facilmente absorvemos de toda a série de observações que foram feitas e dos fenómenos detectados, mas também das consequentes interpretações feitas pelos diversos cientistas ao mesmo tempo que se desenvolviam motivações da parte das mais variadas religiões. Para estas, tudo era mais facilmente explicado pela existência de um ser superior ou criador e o problema estava resolvido. Mas a ciência, baseada na observação directa que hoje é possível com os instrumentos mais sofisticados e no desenvolvimento proporcionado pelas mais que provadas leis da física moderna e da matemática aplicada, foi progressivamente apresentando uma série de teorias para conseguir explicar como se processou a formação do universo, a sua expansão e o caminho que conduzirá ao seu destino. É toda essa série de teorias parciais que Hawking nos vai explicando ao longo das páginas deste livro, na tentativa de ser encontrada uma teoria unificada. Esse foi também um trabalho sem sucesso tentado por Einstein mas nesse tempo faltavam ainda certos conhecimentos que só ultimamente têm vindo a ser descobertos. Stephen Hawking consegue revelar-nos com pormenor o estado actual do caminho para encontrar a Teoria de Tudo. No final da leitura desta sua obra saberemos qual a situação actual e aos leitores será dada a conclusão. Estaremos ou não a caminho de uma Teoria de Tudo? O autor considera que a partir do momento em que for descoberta uma teoria completa todos seremos capazes de a perceber na sua generalidade e participar na discussão das razões porque o universo existe. E se descobrirmos a resposta, teremos obtido o triunfo máximo da razão humana. Porque então – afirma Hawking – conheceremos a mente de Deus. São muitos os que dizem que isto pode parecer um paradoxo vindo de um ateísta confesso, como é do conhecimento público. Sendo um dos maiores cientistas da actualidade que tornou a astrofísica acessível a todo o público é igualmente paradoxal e irónico que tudo aquilo que pensa e descobre esteja alojado no interior de um cérebro que pertence a um corpo aprisionado numa cadeira de rodas mas comunica connosco através de um computador que recebe o sinal enviado por um sensor colocado nos óculos que por sua vez reconhece um pequeníssimo movimento no seu olhar. E foi aliás ele próprio que o concebeu para depois ser montado pela Intel e assim,  apesar da sua debilidade física, ocupou até há pouco tempo a cátedra de Isaac Newton da Universidade de Cambridge, sendo actualmente Director do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica. Trabalhos, livros e conferências são conseguidos desta forma que, parecendo simples, é ao mesmo tempo extraordinária, tal como a sua mente prodigiosa que nos permite ler obras como esta que aqui deixamos.

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Nota do autor deste site: Já depois desta obra, Stephen Hawking escreveu juntamente com Leonard Mlodinow outra mais recente (2010) ainda não editada em Portugal. “The Great Design” (O Grande Desígnio) é de novo uma tentativa para esclarecer as dúvidas que ainda subsistem. Uma história apenas do Universo ou várias histórias do que convivem em simultâneo? Já o lemos mas esperemos pela edição em português para o colocar aqui.

AUSCHWITZ – UM DIA DE CADA VEZ
Westher Mucznik

Auschwitz nunca mais! É este tipo de frase que apetece dizer, aliás utilizado em diversas ocasiões quando queremos expressar o nosso desejo de que determinados acontecimentos não se repitam. E quando neste caso, essa palavra maldita significa um dos maiores horrores que os homens praticaram, levando ao sofrimento e à morte de mais de um milhão de pessoas, homens, mulheres e crianças, vivendo os seus últimos dias – se é que a isso se pode chamar viver – sujeitos às maiores privações, desde a fome às torturas, espancamentos, sem qualquer tipo de assistência mas muito deles fazendo parte ainda de diabólicas experiências médicas, que os conduziam a males ainda maiores, quase duvidamos que essa gente que originou o gigantesco holocausto, na tentativa de destruir os que não eram da sua “raça” ariana, eliminando sobretudo judeus e ciganos, pudesse pertencer à espécie humana. Nunca na história da humanidade se perpetraram tais crimes, tão numerosos e com tanta violência. Os relatos que nos chegaram, através dos sobreviventes, ao longo dos anos que se seguiram à sua libertação, deram-nos a conhecer a forma como tais crimes eram cometidos, o que se passava nas câmaras de gás, nos esgotantes trabalhos forçados para ajudar a força de guerra nazi, nas casernas onde se amontoavam no total desconforto como se de animais se tratassem, centenas de presos, muitas vezes sem saber se estariam vivos no dia seguinte. Mas cada testemunho que nos chega, cada história contada, cada retrato da miserabilidade a que foram sujeitos esses muitos milhões de seres humanos é sempre algo que nos revolta ainda mais. Se é que é possível ser maior a revolta que já sentíamos. No passado dia 27 de Janeiro cumpriu-se mais vez o que está estabelecido para comemorar de 10 em 10 anos a libertação de Auschwitz em 1945. Foi há 70 anos portanto que o Exército soviético entrou pelo chamado Portão da Morte para retirar os poucos sobreviventes que ainda ali se encontravam depois dos nazis terem levado a quase totalidade, muitos deles acabando por morrer nas marchas de retirada. Nesta cerimónia, que contou com a presença de 11 líderes de países europeus e delegações de mais de 40 países, assistiu-se pela televisão à forte carga emotiva com que reagiram naturalmente os cerca de 300 sobreviventes que ali voltaram para prestar a sua homenagem, muitos deles a familiares e amigos mas não só, a todas as vítimas que perderam a vida naquele conjunto de campos na região sul da Polónia. E, tal como foi salientado pelos oradores, os próximos aniversários não contarão certamente, devido à sua avançada idade, com o número de sobreviventes que ali estiveram desta vez. Foram as suas vozes e de outros que já partiram que nos permitiram conhecer até que ponto foi possível tal capacidade humana para a extrema humilhação, desprezo e genocídio de outros seres, biologicamente seus iguais mas diferentes nas suas crenças ou religiões. E é aqui que todos devemos centrar a nossa atenção. É necessário não esquecer, não esquecer nunca, lembrar nas escolas e nos livros, para que passe de geração em geração e possamos garantir com toda a certeza: Auschwitz nunca mais! Também nós próprios desejámos trazer aqui mais um livro que saiu nestes últimos dias precisamente nesse contexto. Para que não se esqueça. E mais uma vez, reparámos que afinal ainda não sabíamos tudo. O que a autora, aliás já com outras obras publicadas sobre Auschwitz, nos faz chegar em relatos não só de certo modo reunidos pelas características do conteúdo em locais determinados mas também cronologicamente organizados de modo a ser conseguido um historial dos factos desde o nascimento destes campos até ao momento da libertação. Perante todo o potencial de sofrimento e dor é também a luta pela sobrevivência, abortar a gravidez para não morrer mãe e filho(a), até mesmo escolher entre a morte de dois ou apenas um, praticando o crime de que mais tarde virão a sentir remorsos. É reagir por vezes, lutando pelo que parece desnecessário face à morte anunciada para salvar a faculdade de ser alguém, onde a cada dia em vez de um “…preferia morrer” (…) decidir “lutar para sobreviver”. Da primeira à última página, adquirimos uma estranha vivência de tanto sofrimento e tanta dor, atingindo a suprema humilhação que desce ao mais imundo do carácter de quem a perpetrou. E o que agora lemos só foi possível porque existem pessoas como a autora, aliás com responsabilidades em vários organismos que se dedicam a perpetuar a memória do Holocausto, que responderam ao pedido feito pelos sobreviventes: “Não nos esqueçam!”. Não esqueceremos nunca, assim o creio. E, se outras razões não existissem, bastaria isso para dar também este meu humilde contributo de aqui deixar o convite para que leiam este livro de Esther Muchznik. Como é hábito vai ser possível proporcionar ao visitante deste espaço a leitura de alguns excertos dele. E posso afirmar que nunca me foi tão difícil a escolha. Porque na verdade todo o livro merece ser lido. Há mais, muito mais para ser conhecido. Bem-haja quem nos permitiu que assim fosse.


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A CHAVE DE SALOMÃO
José Rodrigues dos Santos

Nos seus últimos romances José Rodrigues dos Santos tem insistido cada vez mais em incluir, para além da inerente parte ficcional, elementos de carácter histórico ou científico. Apesar de já ter sido atingido por alguns críticos que não apreciam esse caminho, argumentando que uma obra científica deve sê-lo de facto, tendo por única função a divulgação do conhecimento científico e um romance deve ter como finalidade a construção de um argumento ou de uma história mais ou menos ficcional ou verídica, o certo é que este autor é um record de vendas no nosso país onde já vendeu 2 milhões de livros, situando-se também no top de vendas em muitos outros países onde é de imediato aceite e traduzido com muitos milhares de exemplares. Portanto, que dizer deste último onde novamente lança Tomás de Noronha, o seu personagem criado em obras anteriores, agora suspeito de um estranho homicídio, que terá de resolver o que significa uma mensagem e um código, para provar que está inocente. A Chave de Salomão é um texto pseudepigráfico onde se encontram vários desenhos geométricos de mais que desconhecido ou discutível significado, atribuído supostamente ao Rei Salomão e daí o pentagrama que aparece na sobrecapa do livro. José Rodrigues dos Santos caminha no seu romance para além deste mistério, há muito indecifrável, para muitos outros sobre os quais presentemente tem sido difícil encontrar respostas como seja a existência da alma, o que é a consciência, para onde vamos depois da morte ou da própria existência de Deus. Ao longo das mais de 600 páginas (como sempre são enormes os seus livros o que pode ser bom para uns mas menos cómodos para outros), o autor cruza constantemente o desenrolar da aventura ficcional com as conjecturas científicas do seu personagem, entrando por descrições de conceitos científicos que são do domínio da física quântica. Ora é aqui que as opiniões dos críticos se dividem. Uns acham que não é um bom livro científico pois para isso existem os cientistas que os escrevem e apresentam. Outros consideram que isso é uma mais valia no romance de ficção pois os leitores ficam elucidados ou melhor elucidados, embora pouco profundamente, sobre algo que só a ciência pode explicar. Acreditamos – aliás José Rodrigues dos Santos o afirma – que a informação científica e técnica incluída na obra é genuína e que as teorias e hipóteses apresentadas são sustentadas por cientistas. E confessa mesmo ter consultado várias personalidades ligadas à física para o ajudarem, revendo os textos que ia escrevendo ou elucidando-o sobre dúvidas em outros que iria escrever. Também o facto de terem estado na apresentação do livro um físico e um psiquiatra são uma garantia de que aquilo que descreve está correcto e de acordo com o que actualmente se conhece. Nós próprios lemos há dias numa outra obra de John Brockman ( Respostas da Ciência) a referência de que Einstein negava a existência da realidade como sendo alguma coisa real pois, segundo ele, “a realidade só existe se houver um observador”. São de facto matéria estranha para grande parte das pessoas e, tal como este caso da realidade, outros acontecem no decorrer de “A Chave de Salomão” que os cientistas sabem mas que nem sempre conseguem apresentar de forma bem explícita à maioria dos leitores comuns. Vejamos uma rápida sinopse: o corpo de Frank Bellamy, director de Tecnologia da CIA, é descoberto no CERN, em Genebra, na altura em que os cientistas procuram o bosão de Higgs. Entre os dedos da vítima é encontrada uma mensagem incriminatória. “The Key: Tomás Noronha”. A mensagem torna Tomás Noronha o principal suspeito do homicídio. Depressa o historiador português se vê na mira da CIA, que lança assassinos no seu encalço, e percebe que, se quiser sobreviver, terá de deslindar o crime e provar a sua inocência. E é neste contexto que José Rodrigues dos Santos resolve juntar o melhor de dois mundos num só: o romance/aventura e a ciência. Será que o consegue para todos os que resolvem folhear esta sua obra? Não queremos ficar com essa dúvida e baseamo-nos apenas nas críticas e nos comentários deixados aqui e ali, nas diversas referências feitas a esta sua obra. Pessoalmente, nós que até acompanhámos a recente descoberta do bosão de Higgs ou Partícula de Deus no CERN, local escolhido por JRS para iniciar o mistério da estranha morte que incrimina o seu personagem, foi-nos fácil ir acompanhando as muitas descrições de carácter científico que o autor deposita nesta obra, como aliás tem vindo a fazer ultimamente. Mas podemos concordar que nem todos os leitores estejam com essa disposição para o fazer, o que é pena pois continuo a considerar José Rodrigues dos Santos um autor que merece ser lido. Fica o convite. E aguardemos mais um ano pela próxima obra para saber se este caminho por ele traçado irá continuar, intensificar-se ou, eventualmente, desviar-se para o conceptual. Confesso que gostava mais que ele continuasse a ser romancista e deixasse a ciência de lado. Mas a minha opinião de nada vale.

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ALABARDAS, alabardas
ESPINGARDAS, espingardas
José Saramago

Este romance inacabado que o nosso Nobel da Literatura deixou no seu computador com trinta páginas apenas, que ia “refundindo e não reescrevendo” como confessava nas notas do seu Caderno a 16 de Setembro de 2009, sempre na intenção de o vir a terminar mas que o fim traiçoeiro, que já se avizinhava, não permitiu, é mais uma jóia  que se junta à sua obra grandiosa, sem dúvida das maiores da literatura mundial e da nossa. Quando o livro chegou às minhas mãos e comecei a sua leitura, não parei senão quando cheguei ao fim. E lembrei-me de imediato de algumas daquelas vozes que aqui e ali se ouviam, de vez em quando, ao citar a escrita de Saramago, intitulando-a difícil de acompanhar, por falta de pontuação ou excesso dela, a incomodidade dos poucos períodos ou parágrafos, enfim uma série de desculpas para não querer compreender a grandiosidade das suas palavras e das suas ideias. É que sucedeu-me precisamente o contrário. Aliás, como é sabido e sempre o afirmei, nunca tive qualquer dificuldade na sua leitura. Mas nestas páginas, do que viria a ser o seu próximo romance, senti uma tal fluidez no seu original processo literário, que não consigo compreender como foi possível alguém dizer que tinha necessitado de voltar atrás na leitura de uma ou outra frase para retomar o sentido. Tudo é tão claro e evidente na exposição dos diálogos, quando existem, como na explanação do pensamento da personagem principal, de tal forma a escrita de Saramago me pareceu até caminhar para novos meios de nos apresentar as suas ideias, o seu pensamento, aquilo que afinal sempre constituiu a mensagem que desejava transmitir aos outros e que consistia, conforme muitas vezes afirmou, a necessidade de agitar consciências, levá-las a pensar, a reflectir, a não serem indiferentes ao que nos rodeia na nossa passagem pelo mundo. E dito isto, nada tendo ainda referido sobre a história do romance em si e do possível enredo que haveria, dadas as circunstâncias, de constituir, perguntei-me muitas vezes que outras palavras poderia aqui deixar diferentes do muito que tenho escrito sobre José Saramago e as suas obras. Eu que até já o saudei, tratando-o por tu, aqui neste mesmo espaço, em 18 de Junho de 2011, sinto séria dificuldade em encontrar algo de novo para além do que já disse nesta mesma peça. Se me fosse permitido, diria que ele é, para mim, o maior escritor da literatura do meu tempo. Os seus livros foram e são, para mim, objectos de culto onde encontro não só as respostas para muitas das minhas perguntas como a ajuda para me interrogar sobre outras que continuo a fazer: Que sociedade é esta onde falta o sentido da humanidade e o respeito pelo outro. E o direito a ser diferente, sem que tal interfira na liberdade desse outro? Até quando a falta de ética no comportamento humano? Questões que me preocupam de facto. Mas vamos então ao livro. A história de um simples empregado numa fábrica de armamento, apaixonado por peças de artilharia, separado da sua mulher que nunca concordara com aquele tipo de emprego do marido, é a base para Saramago reflectir sobre uma questão que desde sempre, como confessa no seu caderno, o preocupara. Porque razão nunca tinha acontecido uma greve numa fábrica de armamento. E havia também, como escreve, o estranho caso de uma bomba que não explodira na guerra civil de Espanha, tendo sido encontrada dentro dela uma mensagem dizendo isso mesmo. Esta bomba nunca vai explodir. Embora também confesse que não se recordava bem onde teria lido tal notícia, o facto é colocado durante um telefonema que Felícia faz ao marido, incitando-o a tentar junto da administração da fábrica onde Artur Paz Semedo (curioso o nome dado ao personagem principal) trabalha, uma autorização para investigar nos arquivos as possíveis vendas efectuadas algumas décadas atrás. E vamos assistindo a uma mudança quase radical nas relações daquele casal, devido à transformação que vai sendo feita na atitude laboral de Artur Paz Macedo mais concordante com a personalidade de Felícia. Mas o importante no romance é mais uma vez a chamada de atenção, afinal tão do agrado do autor, para a persistente existência dos interesses mais obscuros dos políticos nas guerras que provocam e alimentam, nos lucros adjacentes e na completa desumanização da sociedade ao longo dos tempos. Até quando? Poderemos perguntar. Infelizmente não o sabemos e por certo Saramago, se tivesse tido a oportunidade de acabar este romance, também não nos daria a resposta. Mas senti uma tristeza enorme por ele não o ter terminado e poder dar-nos algo mais a juntar ao muito que nos deixou e que ficará para sempre nas bibliotecas dos seus leitores, espalhados pelos quatro cantos do mundo. Essa tristeza, confesso, não retira o enorme prazer de o ter lido mais uma vez na sua prosa inconfundível. O livro  contem ainda dois interessantes textos de duas personalidades muito ligadas à vida e obra de José Saramago. O poeta e ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera faz uma análise bem construída de como este último livro se insere na obra completa do nosso Nobel da Literatura. O jornalista italiano Roberto Saviano consegue colocar-se no papel de alguém que também conheceu uma série de pessoas semelhantes à personagem criada por Saramago. “Também eu conheci Artur Paz Semedo. Não trabalhava numa fábrica de armamento… e o seu nome era Tim… Rodolfo…Christian… etc.”. E acaba por contar-nos histórias curiosas desses seus "conhecidos". Enfim, aqui está portanto “Alabardas”, o último romance (o inacabado) de José Saramago. Mas tenho esperanças de continuar a falar dele neste meu Amor Pelos Livros.


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